Toda vez que a Amazon protocola um aparelho na Anatel antes de anunciar oficialmente, alguém do outro lado consegue ler esse documento e adiantar o que vem por aí. Foi o que aconteceu nos últimos dias: o Tecnoblog teve acesso a uma sequência de certificações da Amazon que aponta para pelo menos quatro produtos novos, e um deles muda a cara da linha Echo como a gente conhece.
Vou separar por dispositivo, porque cada um veio com pistas diferentes.
Os candidatos a Kindle
Três modelos apareceram nos registros com especificações parecidas: o LP38MA, certificado em 25 de agosto, e a dupla Z4P32D e T3R8L5, homologados juntos. Todos têm Bluetooth, Wi-Fi e bateria recarregável, o LP38MA por porta USB comum e os outros dois por USB-C.
O detalhe que aponta para um e-reader, e não para outra categoria de gadget, está na fábrica. Os três saem da Nanchang Qinsheng Electronic Technology, na China, a mesma linha de produção que já fabrica o Kindle Paperwhite atual. Nenhum dos três tem carregamento sem fio, o que descarta uma versão Signature Edition. O modelo mais velho da família, o Kindle básico, está com a mesma tela desde 2022 e só ganhou brilho extra em 2024, então ele é o candidato natural a uma atualização. Como são duas homologações separadas, dá pra imaginar dois modelos diferentes saindo ao mesmo tempo, não só um refresh.
O Echo que ganhou câmera
O modelo PE4Z26 é o que mais chama atenção. Foi certificado ainda em abril, mas só veio à tona agora, e a ficha técnica é generosa: Wi-Fi 6E, Bluetooth, Zigbee e um radar FMCW, provavelmente o mesmo sistema de detecção de presença que já existe no Echo Dot Max. Nas fotos de certificação, o formato lembra um Echo Studio ou Echo Max, só que com uma câmera embutida.
Tem uma porta que parece ser Ethernet na traseira, algo raro em caixas de som inteligentes, e uma rosca de montagem na base, a mesma que o Echo Studio usa para tripé. A fonte de energia é robusta: 30V e 1,66A, quase 50W, valor parecido com o do Echo Studio de hoje.
Não é a primeira vez que a Amazon tenta colocar câmera num Echo sem tela. Em 2017 veio o Echo Look, pensado para ajudar a escolher roupa, descontinuado em 2020 por falta de adesão. Se o PE4Z26 emplacar dessa vez, provavelmente não vai vender a ideia de "estilista", mas sim segurança residencial e automação, dois mercados que cresceram muito desde então.
O roteador do Amazon Leo já está liberado
Enquanto isso, um projeto de outra frente da Amazon andou mais rápido: o roteador do Amazon Leo, o serviço de internet via satélite que compete com a Starlink, recebeu homologação da Anatel em 14 de agosto. O certificado 03127-26-18543 saiu no nome da Amazon Kuiper Brasil para o modelo L1LA10, segundo apuração do Canaltech.
O aparelho tem Wi-Fi 6 dual band, Bluetooth LE, Zigbee, chip principal Qualcomm IPQ5018 e mede cerca de 17 centímetros. Não é o modelo final de venda ao público, mas a homologação é um passo concreto para o serviço operar no país. A Amazon também já apresentou à FCC americana um plano de até 5.105 satélites, incluindo comunicação direta entre satélite e celular comum, mas isso ainda depende de acordos com operadoras locais e está longe de acontecer no Brasil.
Por que a Anatel aparece tanto nas notícias da Amazon
Vale separar duas coisas que às vezes se misturam. Uma é a homologação de produto, processo técnico que testa segurança elétrica, emissão de sinal e proteção contra invasão antes de um aparelho poder ser vendido legalmente. É esse processo que vazou nos casos do Echo e do roteador.
A outra é uma disputa regulatória que não tem relação direta com os produtos novos, mas ajuda a entender o peso que a Anatel tem sobre a Amazon no Brasil. Desde 2018 a agência tenta obrigar marketplaces a controlar a venda de eletrônicos sem homologação. A Amazon recusou o Plano de Conformidade proposto e levou a discussão à Justiça, chegando a conseguir decisões favoráveis. Em maio, o TRF3 derrubou essas decisões e voltou a exigir que a Amazon exiba o código de homologação em todo anúncio de produto eletrônico na plataforma, sob risco de penalidade.
Ou seja: o mesmo órgão que certifica o novo Echo é o que está brigando na Justiça para fiscalizar o que terceiros vendem dentro do marketplace da Amazon. São processos separados, mas os dois mostram a Anatel com um papel mais ativo sobre a empresa do que era comum até pouco tempo atrás.
Quando isso chega para valer
Nenhuma dessas certificações vem com data de lançamento. O padrão da Amazon nos últimos anos tem sido um evento de hardware no fim de setembro, e a expectativa de quem acompanha homologação é que este ano se repita. Se for assim, dá pra esperar novidades sobre Echo e Kindle dentro de poucas semanas, com chegada ao Brasil normalmente alguns meses depois do anúncio nos Estados Unidos, como já aconteceu com gerações anteriores de Echo e Kindle por aqui.
Fico de olho nos próximos registros. Se sair mais alguma coisa relevante antes do evento, atualizo por aqui.